Crioulo Lageano

Segundo a maioria dos pesquisadores, os rebanhos crioulos do sul do Brasil são fruto do cruzamento de rebanhos trazidos por portugueses e espanhóis. As primeiras remessas de gado português chegaram a São Vicente, provenientes de Portugal e Cabo Verde, em 1534. Os primeiros rebanhos de gado espanhol, provenientes de Sevilha, desembarcaram na Ilha Espanhola a partir da segunda viagem de Cristóvão Colombo, em 1493.

A principal contribuição para a formação do gado crioulo lageano veio dos rebanhos transferidos pelos jesuítas no início do século XVIII, das Vacarias del Mar para os campos de cima da serra, formando as Vacarias del Piñar.

Importante assinalar que pelo Planalto Catarinense passaram expedições espanholas em direção à Assunção,como a de D.Alvar Nuñez Cabeza de Vaca. Também os bandeirantes por aqui passaram em direção às Reduções Jesuíticas. Embora não haja registros, é possível que algumas destas expedições tivessem abandonado gado ao longo do caminho.

Os tropeiros também deram sua contribuição para a formação dos rebanhos crioulos do sul, visto que eram bons mercadores e certamente foram responsáveis pela introdução de matrizes e reprodutores trazidos de outras regiões.

Ao longo dos séculos os rebanhos crioulos do sul sofreram processo de seleção natural com pouca interferência do homem, visto que as fazendas da região não eram cercadas e o gado era reunido anualmente, nos rodeios, para contagem e retirada do desfrute. Isso possibilitou que o gado crioulo se adaptasse plenamente às condições de clima e pastagem da região.

Este gado dominou os campos nativos do sul do Brasil até o início do século XX, quando começaram a ser introduzidas as modernas raças européias.

A partir daí, este importante material genético foi preservado graças ao árduo trabalho desenvolvido por alguns criadores da região de Lages (SC), dentre os quais destacamos José Maria de Arruda Filho e Viterbo Camargo(Painel), Leovegildo Didi de Souza(Lages), e Pedro de Souza(Urupema).

Todavia, o gado crioulo lageano só chegou ao século XXI graças ao trabalho abnegado dos preservacionistas Nelson de Araújo Camargo e Antonio Camargo.

O Sr. Nelson de Araújo Camargo iniciou a criação de gado crioulo em 1950, quando herdou parte do rebanho de seu sogro Leovegildo Didi de Souza.

Um pouco mais tarde, em 1960, depois de se convencer das qualidades do gado crioulo, o Sr. Antonio Camargo passa a formar um plantel, garimpando os últimos exemplares existentes nos confins do Planalto Lageano.

Na década de 80, o gado crioulo atraiu interesse de muitos pesquisadores, graças a sua importância histórica e as suas peculiaridades.

Considerando a condição de grupamento racial único e seguindo os parâmetros internacionais para designação das raças bovinas, os pesquisadores da Embrapa passaram a denominar este gado de “Crioulo Lageano” em seus trabalhos científicos. Indiscutivelmente, o atual rebanho de gado crioulo lageano descende de matrizes e reprodutores selecionados em fazendas localizadas no planalto lageano, ou seja, nos campos de altitude do planalto sul brasileiro. O gado crioulo lageano pertence indiscutivelmente ao tronco do Bos taurus ibericus.

Os tropeiros eram difusores de cultura e provavelmente foram responsáveis pela associação que se fez ao longo dos anos entre o gado crioulo lageano e o gado franqueiro. Além disso, segundo Licurgo Costa, há registro histórico de experimentos realizados em Lages, no final do século XIX, de cruzamento do gado crioulo com o franqueiro vindo de São Paulo e com o Zebu. Todavia, segundo o Prof. Nicolau Athanassof, tanto o gado Junqueira(criado em Minas e São Paulo) quanto o gado Franqueiro(criado em São Paulo, Mato Grosso e Goiás) pertencem ao tronco bos taurus aquitanicus. Apesar da confusão histórica com o crioulo do sul, possuem características e portes distintos.

Embora sob acompanhamento de pesquisadores da Embrapa, UFSC, UDESC e Epagri, o rebanho de gado crioulo lageano encontra-se bastante reduzido e sob ameaça de extinção.

Duarte, J. R. 2010. Especial para o site fazendagrande.wordpress.com

Referências

Arruda Filho, J. M. Coisas do Passado. 1964.
Athanassof, NManual do Criador de Bovinos. Edições Melhoramentos, 1953. pp. 34 a 37.
Camargo, A. Depoimentos de 2004.
Camargo, N. A. Depoimentos de 2004.
Costa, LO Continente das Lagens. FCC Edições, volume 4, 1982. 1487p.
Ehlke, CA Conquista do Planalto Catarinense. Editora Laudes, 1973. pp. 120 a 124.
Primo, A. T. Os bovinos ibéricos nas Américas. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, Rio de Janeiro. Anais…. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Zootecnia, 1993. pp. 183-199.
Porto, A. História do Gado no Brasil. in Ver. Do Museu Júlio de Castilhos e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, ano 1, nr. 1. pp. 436 a 480.
Porto, A. História das Missões Jesúiticas.